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A espera de Godard - Festival de Cannes 2014

por Fátima Pinheiro, em 20.05.14

 

                                                         

                                                           A espera de Godard

                                                           Boris Horvat/AFP

 

 

Podem esperar sentados. Ele já disse que nada o demove, que o que interessa é o filme; que bem o podem ir “buscar a casa”, que não, não vai. Em entrevista exclusiva à RTS, aborda-se o seu filme em competição em Cannes, Adieu au langage, que poderá receber a Palma de Ouro 2014. O realizador revela ao jornalista que não precisa de um prémio de carreira; que se fosse antes, na sua juventude, que sim, talvez. E sem qualquer sorriso na cara, mas cheio da sua ironia, até diz que pode dar a Palma ao seu assessor financeiro, se ele a receber, claro. Esta coisa de querer enterrar as pessoas em vida é, na verdade, digo eu, monstruosa.

 

 

Na referida entrevista explica: "Par esprit de contradiction, j'aimerais mieux qu'il n'y ait aucun prix. Qu'ils ne soient pas obligés de donner un petit prix, en général pour l'ensemble de sa carrière, ou des choses comme ça, que je sens un peu désobligeant aujourd'hui. J'en ai déjà eu 5 ou 6, j'ai même eu un Oscar". Mas Jean-Luc Godard nunca ganhou a Palma. Os prémios valem o que valem. Estou com ele: não que não fosse a Cannes, mas no que diz respeito a estas “histórias do Cinema”.

 

O filme Histoire(s) du Cinema foi para mim uma bomba. Ainda o é. Perguntei umas coisas a Guillaume Bourgois, especialista em Oliveira, quando esteve cá em Lisboa. Como este filme parece “a” montagem, e sendo esta um elemento fundamental para o cineasta francês, qual é o método que ele utiliza neste filme? «Godard tem uma teoria interessante acerca da montagem. Diz que, ao misturar elementos aparentemente totalmente opostos, ele tenta produzir ‘des étincelles’  produzir ‘faiscas’, ou seja criar comparações e paralelos inéditos. Para ele, é aí que está a força e a singularidade do cinema. A sétima arte é uma arte que cria ideias paradoxais e que obriga assim a pensar elementos que escapam às outras artes ou até à filosofia. Além disso, a vitalidade do cinema godardiano nasce do facto do seu sistema fílmico se reinventar perpetuamente. Mesmo se Godard repete certas imagens e sons, ele nunca os utiliza da mesma maneira e tenta sempre encontrar uma nova forma para que o cinema possa investir um novo território.»

 

Guilhaume ensinou-me outras coisas sobre cinema e citou Philippe Dubois, que termina o seu livro Cinema, Vídeo, Godard afirmando que considera Histoires(s) du Cinema o “único verdadeiro grande projeto de Godard”. Dubois acredita que os filmes eram apenas “momentos de produção”, enquanto que História(s) seria esse “projeto desmesurado e impossível, que o persegue há muito, um projeto sem limites, lugar de uma imersão insana”. Onde Godard sintetiza o seu pensamento.

 

Jean-Luc é realmente outra onda. “Nova vaga”, se quiserem. É para se ver, sentado. O queixo estará sempre caído de tanto espanto. É preciso “ver e não ler”, “a escrita é lei, portanto morte”, como diz muitas vezes o homem que bem podem esperar. No site deste Festival de referência há a frase do dia. A de ontem era esta: “O mundo entra em nós, molda-nos, modifica-nos, contamina-nos. Em reação a isso, o filme quer lembrar-se da nossa humanidade comum.” (Pascale Ferran).

 

À espera de Godard, eu? Não. Ele é que espera sempre por mim. Sentada e de olhos arregalados, intrigados pela vida que teima em formar e brilhar. Como um fogo de artifício. A encher a humanidade que, tudo indica, alguém me prometeu. E claro, já esfrego as mãos para “dizer” Adeus à linguagem, num lugar perto de “si".

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