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imagem: Maria Lisboa

Há parecidas, mas o dicionário de língua francesa não tem a palavra “abraço”. Dei por isto numa conversa com uma amiga francesa, um dia, fazia anos, e almoçávamos ao lado do tejo. Visto de cima. Queria há muito mostrar-lhe o sítio e, a certa altura, ao tentar explicar porquê, disse-lhe que ali me sentia abraçada pelo rio, pela cidade, pela luz. Ela não percebeu. “A-bra-çada”!? Esperta como tudo, pensou e confirmou: “não, em francês não há essa palavra”. Loura, olhos azuis, calma – o meu oposto -, sorrimos as duas e não nos preocupamos com o caso. Ela percebeu o que eu queria dizer. Tudo dá no mesmo, mas é curioso.

A filosofia tem destes afazeres e sendo a fenomenologia a minha praia, encontro aqui pano para mangas. O «abraço» tem uma riqueza de modalidades na linguagem, tanto no seu uso como no seu abuso. Mas neste campo não há “essências” penduradas de um qualquer céu platónico, há as “coisas mesmas”.

“Abraçar” as circunstâncias, a situação. Uma doença, por exemplo (e aqui outras mangas…). Um por do sol. Um luar. "Ó pá, dá cá um abraço!” Há abraços de mãe. De pai. De amigos. Camaradas. Amantes. Colegas. Dos de Judas aos mais formais; de circunstância (como os desmaios…). Há o abraçar os “mais pobres dos pobres” – como "fazem" as princesas da Madre Teresa de Calcutá.

Há depois o cais e a eternidade do “Alô, Alô, Teresinha, aquele abraço!”. Brasileiro é Português, mas é diferente. Como diferente é o “O ABRAÇO do filho pródigo”; mas se fosse agora por Rembrandt e por aquele lugar no Hermitage, tinha que sair deste post e recuar às vezes que o contemplei e contemplo, agora, nos “palácios da minha memória”.

Ao “abraço” junta-se o “braço”, que esse os franceses têm mas parece-me que não o “gastam” tanto. A “braços” com a situação. Um “braço de ferro”, entre fulano e coiso e tal. Enfim não vou deter-me por muito mais. Esperam-me hoje abraços para dar e receber. Acabo a dizer que será por alguma razão que não há “abraço” na língua francesa. Que se calhar é por isso que o pai da filosofia moderna não é português (não, não foi o Sanches); e que é por isso que eles têm o Jean Gabain (“Je sais, je sais, je sais”), e nós o Toni de Matos (“anda, abraça-me, beija-me, encosta o teu peito ao meu…”, do “só nós dois é que sabemos”) e a poesia (embora eu não vá nesta conversa de não termos filósofos portugueses…). O José Cid lembra que “Adeus” é mais parecido em todo o lado; mas isto não interessa para nada. Filosofias. Vamos mas é para as obras: silêncio.

O silêncio – se o é de verdade, e não “o programa continua dentro de momentos” – transborda de palavras, "tudo abraça, tudo suporta, tudo crê". Porquê? Porque Acontece, sem que nada tenhamos que “fazer”. É simples, como a vida. Ok, eu luto pela vida, mas sou eu que em última análise a faço, ou sou dono dela; agora? O sorriso e o abraço assim encarnados, jantam-me com uma alegria – “joie”; aqui sim – à borla e inestimável. Insustentabilidade absoluta. Não cabe no PIB (http://luzelata.blogs.sapo.pt/portugal-aumenta-riquezaprostituicao-7268) . Maravilhosa, cheia de encanto e luz.

Abraço que hoje é Mundial e inclui Santo António, que é português, gosta de marchas e manjericos.

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