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"Study for the Room" (1949), Baltusz Klossowski de Rola

«O Dom das Lágrimas» (Assírio & Alvim, 2002) é um livro que tenho à minha frente. Melhor, à roda toda. Mas cabe num bolso. José Tolentino Mendonça e Joaquim Félix de Carvalho, assinam introduções e tradução. Nunca está lido, como se depreende do subtítulo: ”Orações da antiga liturgia cristã”.

Deram-mo em Setembro de 2005, quando alguém pensou que eu iria chorar muito. Na altura não achei muita piada. Agora, agradeço, 'agora é que percebi' (Amália ou Marisa, não me lembro). Guardo-o à vista num dos meus 'lounges', no prodigioso e espaçoso “campo da minha memória”, agostiniana à minha pequenez e alegria.

Preferia que me tivessem então dado outro género de leitura, sei lá, “Gória Gaynor para todos” ou “I will survive: in your pocket”. E pensei: 'olha, chora mas é tu!' Já calculava que a canção era mentirosa! Mas calma: é das melhores para dançar, e não perco uma. Não tem nada a ver; estou a falar de outra coisa.

O tempo – outra vez – passa e entendo o livro obrigatório. Não diz nada de novo, eu é que tenho vindo a aprender a dizer de forma “nova”. Obrigatório este promontório. Pouco mais posso acrescentar. Porquê? É como ir a um restaurante. Cada um pede o seu prato. Mas deixo um aperitivo: “Chorai. Não existe outro caminho, além deste.” (Poemen), começa assim. Importa-se de repetir? O que é mesmo brutal é que se vai experimentando que essas lágrimas têm Dono: um nome, uma herança. E que essa herança não se reparte, é absoluta, é minha e de todos os que a pedirem.

Na página 12: “(…) ‘Pelas minhas lágrimas, conto uma história’, escreve Roland Barthes”, lembra Tolentino. E a seguir, e recuando no tempo, acrescenta: "A importância do pranto transmitiu-se à espiritualidade cristã. As lágrimas tornaram-se a marca dessa ‘tristeza segundo Deus’, que não é, como primeiro explicou Orígenes, uma qualquer tristeza voluntária, mas ‘uma dor permanente provocada pela dor do pecado’, uma sede da alma, um húmido silêncio espiritual que refresca as labaredas do coração, uma veemência interior, uma carência da Glória de Deus.” Uma glória que só é “ganho” porque “perde” para o que passa e esquece a Lua Cheia, mesmo numa sexta 13; bem como esquece um belo dia de praia que hoje promete. Estão também lá, nas praias, muitas lágrimas de Portugal. E o Sol também; que sem ele a Lua é nada (na simbologia cristã, a Igreja é comparada à lua que recebe a luz do sol, Cristo).

No Menu: João Crisóstomo, Gregório de Nissa, Jerónimo, Ambrósio, Diácono Efrém, Basílio, Pedro Damião. E a terminar a sua Introdução, que tem como título A SINTAXE DAS LÁGRIMAS, ilumina Tolentino: “…esta arquitectura verbal, repetida, ínfima, que se despoja de efeitos e tão evidentemente recusa saberes [e que] tem afinal, a tensa cintilação de corpos atravessados pelo desejo de Deus”

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