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Papa Francisco: Acaba o Celibato dos Padres?

por Fátima Pinheiro, em 03.06.14

 

 

A  Igreja raramente recorre à proclamação de um Dogma no sentido forte do termo, isto é, ex cathedra ( de resto há muitos dogmas, entendendo-se estes como máximas, verdades, opiniões)  Mas quando o faz é por razões pedagógicas, para realçar algum aspeto que esteja a ser “descurado”  na vida da Igreja; e fá-lo a partir dessa experiência de vida. Isto é, reconhece formalmente o que já é vivido no seu seio, na sua prática milenar. Numa palavra, não o faz à la a carte e por razões do “eclesialmente” correcto, ou para inglês ver. Vem isto a propósito do Papa Francisco, mais uma vez a marcar pontos ao “obrigar” a pensar e a conhecer a Igreja; a fazer as distinções essenciais. Foi no regresso desta recente visita à Terra Santa, ao responder à pergunta dos jornalistas: o celibato dos padres poderá deixar de ser obrigatório? Já em 2012 se tinha pronunciado sobre este assunto. Paulo VI e Bento VI também. Em ambas as ocasiões disse: eu sou a favor do celibato dos padres; embora não seja um Dogma – e por isso pode mudar-se - , o celibato é um Dom de Deus à Igreja, uma disciplina, uma regra de vida que eu aprecio muito; por isso, apesar dos seus prós e contras eu sou a favor; temos do celibato dos padres dez séculos de boa experiência; a tradição tem a sua validade…. Não se espere portanto que o próximo Sínodo de Outubro, sobre a Família, se centre na questão do celibato, e outras que vêm à colação (contraceção, homossexualidade, etc.). É preciso ir a montante: pensar, entender, clarificar o que é a família, que está em crise, e tudo ver a essa luz.

 

Mas voltemos ao celibato, o mote do Programa da RTP 1 “ Prós e Contrasde ontem, que acabou por ter como tema “A Igreja e a sexualidade”. Mais uma vez agitou e provocou que tenham emergido diferentes perspetivas e sensibilidades. Um ponto que registo: manifesta abertura a mudar. Mas não se pôs a hipótese que a mudança pudesse ser a de proclamar o celibato com Dogma. Curioso, não é? O Pe. Feytor Pinto sublinhou, sim, o aspeto mais determinante do celibato dos padres: a identificação do sacerdote com Cristo. Seja o sacerdote um outro Cristo.  Será que Francisco sonha com isto, e sabe que é preciso que seja “realizado” ex Cathedra?

A Madre Teresa de Calcutá dizia que a Palavra de Deus não é a Bíblia. What? A Palavra de Deus é a Bíblia, sim, mas mais a Tradição. Dogma e Tradição casam bem, como há pouco referi. São poucos os Dogmas ex-Cathedra. Mas como o século 19 resultou numa aceleração permanente – ainda em andamento -, nestes últimos dois séculos foram proclamados três Dogmas.

 

Em 1854 o da Imaculada Conceção de Nossa Senhora, que sublinha a atualidade do pecado original como razão da fragilidade do humano, que se traduz na dificuldade em não conseguir realizar o bem que se vê e gosta e quer, mas acaba por fazer o que não gosta, ou no fundo não se quer. Em 1870, o Dogma da Infabilidade Papal (em matérias de Fé), para mostrar que o homem não é a medida de todas as coisas, numa época em que esse é um sound bite vertiginoso e imparável. E em 1950, o Dogma da Assunção de Maria ao Céu em corpo e alma, para lembrar a unidade de corpo e alma, que é o homem; o corpo não é o usa, gasta e deita fora; uma “coisa”, “um número”, mas uma dimensão essencial do humano. ”Eu não tenho um corpo, eu sou um corpo”, é uma pedra no pântano materialista então a iniciar um reinado do qual ainda hoje se desconhecem contornos. João Paulo II viria a seguir, e devido à sua formação fenomenológica, foi capaz de começar um estudo sobre a sexualidade que se veio a concretizar na sua obra, e nas catequeses de 4ªfeira, já publicadas entre nós. A designada “Teologia do corpo”.

 

A lei do celibato obrigatório começou com o Concílio de Trento. Mas só quem ignora que a Igreja é uma vida – com a s suas etapas, momentos felizes, e outros não tanto -, pensa que ser padre é ser como os companheiros de Cristo, que erem casados. O que é certo é que a prática do celibato pelos padres começou a frutificar; eles começaram a ser vistos como um sinal de que a nossa vida não acaba “assim” e “aqui”. Ao entregarem-se a “tempo inteiro”, ao “prescindirem” (não digo que não gostassem de o fazer) de constituir família (mesmo sem filhos; há casais que não têm filhos), passaram a ser “uma coisa do outro mundo”. Lembram-me  o meu "fim". São "escatológicos".

 

Claro – o próprio Papa o lembrou no avião aos jornalistas –,  há padres casados muito bons. E referiu os seus colegas de rito católico oriental. Mas a sexualidade não se reduz ao casamento. A sexualidade o que é? João Paulo II vê-a na diferença e complementaridade do humano: Deus criou o homem, e criou-o “homem e mulher.” Padres, relioiosos , leigos, toda a ahumanidade.

 

 O casamento o que é?  Atualiza a comunhão de duas pessoas na unidade que envolve a pessoa toda. O Amor de Deus, que a investe na raíz, pode levar à criação de novas criaturas, os filhos. Estes surgem de um Amor que envolve pai e mãe. Estes não são “capazes”; mas o impossível acontece porque eles são Amados na atração que os envolve; às vezes no primeiro olhar. "Give my all to you". 

 

Eu tenho uma amiga casada com um pastor protestante. A vocação dele dividi-o entre duas famílias. Entra e sai, acode fora e dentro, mas não pára em nenhum dos lados. São pessoas extraordinárias e infelizes. Não há tempo para regar intimidades  e cumplicidades. A isto, sim, eu chamo contra natura. Não acham? Natural é o prazer, o orgasmo e o tudo o mais que foi criado por Deus. O corpo é um templo.

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