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Luz e Lata passou a Rasante

por Fátima Pinheiro, em 03.07.14

Fátima Pinheiro

O Blogue "Luz e Lata" chama-se agora "Rasante" e está aqui: http://rasante.blogs.sapo.pt/

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José Luís Nunes Martins
jornal i
28 junho 2014
http://www.ionline.pt/iopiniao/depois-chorar

DEPOIS DE CHORAR

«Não é a tristeza que nos faz chorar, mas o amor que enfrenta os vazios. As angústias e desesperos são expressões de falta.

As lágrimas que de nós brotam e caem longe do olhar dos outros são as que mais força trazem em si, as que fazem concreto e objetivo o sentir mais íntimo.

Por vezes, o coração cai nas armadilhas das tristezas antigas... outras, sentimos os espinhos das novas adversidades cravarem-se-nos na carne. Há sempre tristezas, há sempre sofrimento, haverá sempre dor enquanto houver amor.

As lágrimas não choradas não deixam de ser amargas, mas essas, ao contrário das que nascem, corroem o interior de quem com elas não chega a regar a terra que lhe segura os pés.

A vida faz-se também com as nossas lágrimas e vence-se, muitas vezes, de olhos carregados de mar. O esforço que nos é exigido chega quase a ser impossível sem lágrimas. Chorar não é sinal de derrota, antes sim de um amor que busca a paz merecida.

O sentido da vida cabe dentro de uma gota de água salgada… a verdadeira paixão é a dor máxima do amor mais profundo. Aquele que faz germinar em nós o melhor… diante do pior.

Depois das lágrimas é tempo de agir.

As lágrimas, tal como tudo nesta vida, têm um princípio e um fim. O amor não. Vive inteiro, em cada momento, do qual é o princípio e o fim.»

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o novo livro de Herberto Helder, que está esgotado e ele não deixa segundas edições. É um...senhor privado que acaba assim por ser público e notório (servidões...)

O meu programa de entrevistas na Televisão chama-se "Ainda não estamos na cama". Copiei de um programa francês e fiz uma tradução rasca de "On n'est pas couché". Isto para dizer que é um espaço no qual a malta não dorme, e se esforça pelo bem comum. Política.

Limitando-me a Portugal, e a uma pequena amostra que me vem à cabeça, começava na Utopia. Para estrangeiros faço outro post. Começaria então com o Herberto Helder, que não dá entrevistas. E seria na leitaria onde ele costuma(va) ir ou na esplanada em Cascais, onde toma(va) café. Seguia-se o meu Manoel de Oliveira, que não dá entrevistas, não porque não queira, mas porque se anda a poupar, e bem, para o filme que, calculo, deve estar a sair.

A sério, sentaria à minha frente o Eduardo Lourenço. Nem digo porquê. Depois, num registo ainda muito sério: Luis Miguel Cintra, D.Manuel Clemente, João Botellho, Eurico Carrapatoso, Manuela Ferreira Leite, Sobrinho Simões, António Câmara, Daniel Sampaio, Guilherme Oliveira Martins, Leonor Beleza, Maria do Céu Guerra, Lídia Jorge, Helena Sacadura Cabral, Jorge Silva Melo, Alice Vieira, Nuno Júdice, José Manuel Fernandes, João Perry e Rita Blanco.

Para audiências imediatas: Isaltino Morais, Ronaldo, Mourinho, António Costa, Pedro Passos Coelho, Fernando Santos e Miguel Relvas. Ou o Professor Marcelo. E noutro registo: José Sócrates e Manuel Maria Carrilho. Os últimos dois até poderia ser em dueto.

Mais jovens e cheios de talento: Ricardo Araújo Pereira, Pedro Santos Guerreiro, Pedro Mexia, Raquel Abecasis, Pe Tolentino Mendonça, Patrícia Reis, Miguel Esteves Cardoso e a menina do Boco de Esquerda.

Para uma Divina Comédia: José Rodrigues dos Santos.

E ainda: Mário Soares, Artur Santos Silva, Rui Vilar, Ramalho Eanes.

E mais ainda: Pedro Santana Lopes, Basílio Horta, e uns assim do género.

Herman, Miguel Guilherme, José Pedro Vasconcelos.

Por hoje chega. E se fosse uma entrevista para hoje, antes do jogo, e abrindo uma excepção, convidaria alguém do Gana.

Começa em Outubro.

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António José Seguro será um bonsai?

por Fátima Pinheiro, em 25.06.14


Em entrevista à Rádio Renascença, ontem à noite, o líder da oposição disse que a partir de agora vai ter cuidado com a linguagem que utiliza. Mais vale tarde que nunca? É que António Costa fragilizou o PS, apontou. Seguro confessa que se “sente” agora outro: “eu hoje sinto-me um pássaro fora da gaiola.” Parabéns Raquel Abecasis , parabéns ao teu Programa “Terça à Noite”, às perguntas que fazes sem papas na língua. Temos que dizer quem são os bons jornalistas. Ora bolas! http://rr.sapo.pt/informacao_detalhe.aspx?fid=191&did=153362.

O PS, ficamos a saber, é uma questão de gaiolas. Ou de bonsais. Já Mário Soares disse um dia que não se sentia um passarinho mas, e também, um pássaro fora da gaiola. E vão dois. A analogia da gaiola – famosa no cinema – é aqui muito interessante. Por seu lado, e também ontem à noite, em entrevista na SIC Notícias, António Costa esforçou-se por lembrar o positivo do anterior governo socialista. E que esse era o caminho. Apontar o BOM. Conseguiu dar dois exemplos de coisas boas. Dois. E que o que agora importa, repetiu, é sublinhar o BOM.

Tirem-me deste filme. Gaiolas Douradas só mesmo no Cinema. E lembro-me também de dois. Filmes. Mas bons.

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Para o meu coração / Fotografia de Bernardo Sassetti

Para o Meu Coração, de Pablo Neruda: "Para o meu coração basta o teu peito,/para a tua liberdade as minhas asas./Da minha boca chegará até ao céu/o que dormia sobre a tua alma./És em ti a ilusão de cada dia./Como o orvalho tu chegas às corolas./Minas o horizonte com a tua ausência./Eternamente em fuga como a onda./Eu disse que no vento ias cantando/como os pinheiros e como os mastros./Como eles tu és alta e taciturna./E ficas logo triste, como uma viagem./Acolhedora como um velho caminho./Povoam-te ecos e vozes nostálgicas./Eu acordei e às vezes emigram e fogem/pássaros que dormiam na tua alma. "

Parece que foi ontem, mas já lá vão dois anos. Um amigo convidou-me para ir ver uma Exposição de Fotografia de Bernardo Sassetti. Eu aceitei o convite. Não fazia ideia que ele também tirava fotografias, pensava que era só músico. As figuras públicas são um bocadinho nossas. Sobretudo aquelas que nos ajudam a encher o coração. A gente desconhece o sonho dos outros. http://youtu.be/PSJ5CQ4dZN0 .

A Exposição de fotografia de Bernardo Sassetti, de Setembro de 2012, intitulada "...e ainda por cima está frio", apresentada pouco tempo depois da sua morte, foi organizada por Daniel Blaufuks. No folheto "Bernardo Sassetti. Fragmento. Movimento.Ascensão" que apresentava a produção conjunta do Teatro S.Luiz , José Sarmento de Matos sublinha como o artista é caracterizado pelo adjectivo "contagiante". Um individuo "brilhante", testemunha. No caso das fotografias, elas foram selecionadas, diz Daniel Blaufuks, "...ao som do Indigo e Nocturno, deixando o piano preencher a noite, que, ao olhar novamente as imagens e ao tentar compreendê-las, percebi que não poderia estar mais vazia". E acrescenta:"...estas fotografias, apesar de irónicas como eu as vejo, são sobre presença, a sua presença, os seus pés fincados e o seu corpo encenado em vários locais, em vários solos, nesta Terra".

Quero aqui dizer que as fotografias que vi, sobretudo a que escolhi para cabeçalho, são brilhantes e contagiantes. Fazem estremecer. São um bocadinho de chuva que doi ao fazer saltar o coração; sinal de que me/lhe correspondem. Porque são pedaços cheios de humanidade. O director artístico do SLTM, José Luís Ferreira, lembra as palavras de Bernardo Sassetti: "qualquer forma de arte deve ser um meio de exploração das nossas convicções pessoais, ainda que possa ser um exemplo vivo de fragilidades e indecisões, tanto humanas como artísticas." E acentua o trabalho apresentado naqueles dias: "...mais do que prestar-lhe homenagem, é procurar com ele o lugar da arte no mistério da humanidade."

Ainda Daniel Blaufuks: "E como não existe positivo sem negativo, a presença é igualmente uma ausência, uma ausência agora ainda mais presente, dolorosamente presente, um espaço abandonado, uma sombra projectada num campo solar, os acordes que ressoam na nossa memória. Existem para além da sua existência concreta. Existem num tempo que já não é o deles, mas existem./ Privilegiados foram os que conheceram bem o Bernardo Sassetti. Mas ainda vamos a tempo. Temos fotografias, filmes e música. Música". Eu? Já perdi tempo que chegue. Quero por as mãos à obra.

Hoje é no Centro Cultural De Belém - Grande Auditório (Lisboa)
SINOPSE do site do CCB: Quando um acorde ao piano é deixado em suspenso indica, naturalmente, que a música ainda não terminou. E abre espaço para que chegue alguém, aproveite a deixa e siga por diante. Após a primeira celebração do aniversário de Bernardo Sassetti (1970-2012) na sua ausência, com a interpretação da banda sonora para o filme Maria do Mar, de Leitão de Barros, este ano a música do pianista será recordada através de um concerto dividido em dois momentos. Na primeira parte, João Paulo Esteves da Silva interpretará temas do reportório de piano solo de Sassetti. Em seguida, apresenta-se a Orquestra de Jazz do Hot Clube de Portugal, com um programa composto por “Pescaria” (a única composição de Sassetti para o formato de big band) e arranjos da sua obra assinados por um conjunto de jovens músicos. O último que deixe um acorde em suspenso, por favor.
Orquestra de Jazz do Hot Clube de Portugal
Repertório de Piano Solo de Bernardo Sassetti
João Paulo Esteves

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Catalina Pestana: que Inferno?

por Fátima Pinheiro, em 23.06.14

O que se passa entre nós é muito bom e é também um inferno, causado por nós. Tolerância zero para os casos mais graves. O Papa “porreirinho”(http://expresso.sapo.pt/o-papa-franscisco-e-mesmo-porreiro=f839556) di-lo de múltiplas formas. Dia sim, dia sim. Ainda ontem:http://www.aleteia.org/pt/religiao/video/torturar-as-pessoas-e-pecado-mortal-5888703444549632). A semana passada vi uma entrevista a Catalina Pestana no Canal 2: http://www.rtp.pt/play/p1580/e157887/tanto-para-conversar. Nela refere explicitamente três REDES infernais. Os adjetivos são meus, tirados dela: impunes, poderosas, silenciosas, polidas, bem educadas. Ou seja – e isto, embora nos espreite a porta, vem de muito longe – o poder instalou-se e “não há quem o levante”. Lavo as mãos. Mas não posso dizer que não sei. Resigno-me então, sentada, ao labirinto kafkiano? Ou corro, ao passo certo? Digo àquele miúdo: não aconteceu nada, vai passar, vais ver…ou digo-lhe: tu foste mesmo lixado, deve doer-te mesmo, quem te fez ou disse “isso” fez uma coisa monstruosa! Não há “delete” para o teu caso; mas vamos arregaçar mangas?

Sem dúvida que o que interessa é resolver o hoje. A política miudinha – e que grande e invisível ela é! – não cessa no “serviço das sedes”, a trabalhar para o bem comum que o é de “cada um”. Todos os dias, anónimos, a dar comida, palavras, abraços, a mão. Em casa e noutras casas. Não acredito na falta de tempo. A vida é para ser dada (Claudel); eu só assim experimento a vida boa. O resto é arrastar-me. Vejo-o na cara dos outros.

Há depois a grande política, a dos media. Não, não sou maniqueísta. Há de tudo em todo o lado. “Dois amores fizeram duas cidades”, e andam “misturadas”, lembrou Santo Agostinho. Catalina mostra. Mulher com todos o sentidos, põe os pontos nos “is”. Sendo pessoal, a intimidade – e assim é que é – fica no seu lugar. As entrevistas não são para escancarar a vida das pessoas; as entrevistas mostram duas pessoas no que são. A maior parte das que vejo, é como se as tivesse visto antes de as ver. Onde estão os pontos nos “is”? Os que faltavam?

No inferno passado e presente das “casas pias” “Deus estava lá!”, respondeu Catalina ao jornalista. Na sexta –feira passada leram-me umas passagens do Inferno de Dante. Pois é! Os pontos nos “is”: chamar a liberdade pelo nome. “Eu não sou religiosa, sou crente.”, repete ela na entrevista, para dizer também que Deus noz fez livres, e que isto é de um preço inestimável. Esquecemo-nos que nada faz sentido sem Ele e que por isso teve que mandar o Seu filho. Que anda aí caído nas ruas e caído nos tronos. Na impotência dos “pobres” e nos tronos inférteis. O meu trabalho não é apontar – apontar é feio, é desumano -, o meu trabalho é “salvar”. Como a rosa, à qual basta ser. Por isso ontem andei atrás Dele, em Procissão, pelas ruas "desta menina e moça". E continuo. Há razões para o fazer. D. Manuel Clemente. Que sorte!

A Política é coisa simples. Díficeis e mortais são as “jogadas” baixas. O que fazer às Bombas de Catalina? Rebentar nem sempre é solução. Perdoar é coisa que só Deus sabe (podia não vir - de óbvio que é - mas vem no Catecismo, nº1441). Mas não há tempo para contemplações. Eu não quero desistir. Nem do grande nem do pequeno. E digo: a solução passa pela companhia. Catalina disse que preferira não morrer sozinha. "Posso morrer ao pé de si?" Mas antes, antes, há que acabar com as CENAS de quem prefere o gosto de peles MACIAS DE BÉBÉ. Como a Senhora contou, do que ouviu da boca daquele menino. A razão pela qual Carlos Cruz gostava mais dele. Eu não acuso. Eu sei e já escrevi, que a Cruz de Carlos é minha também. Senão que Deus seria este? (http://expresso.sapo.pt/a-cruz-do-carlos-e-igual-a-minha=f798511). Vá lá!

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O que é o Corpo de Deus? S.Agostinho ajuda...

por Fátima Pinheiro, em 22.06.14

Procissão, uma de tantas...


«Santo Agostinho ajuda-nos a compreender a dinâmica da comunhão eucarística, quando faz referência a uma espécie de visão que teve, na qual Jesus lhe disse: ´Eu sou o alimento dos fortes. Cresce e receber-me-ás. Tu não me transformarás em ti, como o alimento do corpo, mas és tu que serás transformado em mim' (Confissões VII, 10, 18). Portanto, enquanto o alimento corporal é assimilado pelo nosso organismo e contribui para o seu sustento, no caso da Eucaristia trata-se de um Pão diferente: não somos nós que o assimilamos, mas é ele que nos assimila a si, de tal modo que nos tornamos conformes com Jesus Cristo, membros do seu corpo, um só com Ele. Esta passagem é decisiva.(...)»

http://www.vatican.va/holy_father/benedict_xvi/homilies/2011/documents/hf_ben-xvi_hom_20110623_corpus-domini_po.html

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"black is black"

Não que eu leia tudo o que é jornal. Mas na política o “menos é mais”. Aprendi a ler e a observar os melhores. Tenho olhos para ver o que se passa. E vejo que, por razões diferentes, Francisco e Marcelo batem records de audiência. São tão diferentes: um atravessa-se e ”faz” Política, o outro limita-se a «brincar» na areia.

Antes só que mal acompanhada. Não é o caso. José Manuel Fernandes escreveu no passado dia 9 um comentário com o título “A insustentável leveza do professor Marcelo”. Onde se pode ler o seguinte: “Marcelo nunca se compromete, nunca se atravessa, nunca diz exactamente onde está e para onde sugere que se vá. Para Marcelo nunca há políticas – há factos políticos. Nunca há objectivos – há apenas fintas e volteios. Talvez seja por isso que Marcelo nunca marcou um golo – na verdade ele nunca remata à baliza, só brinca na areia.” (http://observador.pt/opiniao/insustentavel-leveza-professor-marcelo/). Eu escrevi aqui umas coisas : http://luzelata.blogs.sapo.pt/professor-marcelo-inacreditavel-o-que-8536 .

Na recente entrevista à SIC, o Papa diz coisas que são repetidas há muito. Mas como hoje é quase tudo “on line”; hoje, que a sociedade que “construímos” chegou a um ponto onde já não há vergonha na cara; hoje, que temos um Papa que é simples em tudo; hoje que muitas sedes apertam, hoje, muito está a mudar por causa Dele. Marca pontos. Transforma a partir do Diamante que ele esculpe ao deixar-se esculpir, “assim”, diante de nós.
Um Político.

A Política – e não o sabíamos nós já? Quem partiu aquela loiça toda no Templo, quem foi???? O Mesmo que se atravessou e continua a atravessar-se cruzado, pois é…. -, a Política, dizia, é a forma suprema da Caridade. A crise é consequência da ambição enlouquecida de poder e dinheiro. Louca, sim, porque não pôs a pessoa no centro. Onde está o “homem”? Só caridadezinhas. Politicazinhas. E mais acabado em “inhas”. Contudo o Papa corta a direito. Não lhe importa o “vaticanamente” correto. Mas como de burro só mesmo o do Presépio (e esse por acaso não devia ser assim tão burro….), Francisco sabe bem quem ele é (isto de ser jesuíta tem muito que se lhe diga) e ironiza. A certa altura da entrevista a Cymerman lembra que não pode estar ali a brincar de Papa Pároco (isto a propósito de um encontro que teve com jornalistas no Vaticano.). E acrescenta perguntando ao jornalista: “sabe qual a diferença entre o Terrorismo e o Protocolo?” Vale a pena ver a resposta.

A Francisco basta “ser” porque o parecer nele se une. Vive no paradoxo de um brincar sério e o seu contrário. Até na areia brinca, como o menino de Santo Agostinho que para conhecer Deus não se cansava de encher de Mar o balde com a sua pá. “I want my baby back”. Fiquem com os Marcelos. Eles abundam por aí.

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Gira a sua vida: comece já hoje!

por Fátima Pinheiro, em 19.06.14

fotografia da net

Temos uma vida ou uma vidinha? Ou não a temos? E os outros animais? E, de certo modo, paro neste reino; sim, porque poderia agora especular noutros campos. Gerir a vida é coisa de humanos. Presume-se. Senão vejamos.

Coisa de humanos? Pois aqui já me chamaram de atrasada mental. “Não vês que já se avançou, e já não se fala assim?” Vejo, vejo. Sei que os animais têm inteligência e gerem as suas vidas. Mas aqui entram as analogias. E neste domínio o termo "primeiro" é o humano. Já viram uma vaca a deixar de fumar? Ou a doar um rim a um amigo? Argumentem que o meu ponto é antropomórfico; mas nestas discussões quem falou primeiro de inteligência animal?

Gira a vida, gira! “E no entanto ela gira, move-se!, alguém genial afirmou. E quase provou cientificamente. Referia-se à terra. Mas cada um de nós é uma terra. Cada ano tudo volta a parecer igual. Cada ano tudo se apresenta de cara parecida. Então, tudo pode vir como mais do mesmo (as férias estão outra vez à porta; e para o Natal e Páscoa já faltou mais….); se morrermos entretanto, outros estarão ainda cá para isso, e na novidade de chorarem por nós.

Cada ano tudo se repete, sendo o eterno retorno do mesmo; é a ilusão do tempo. Ou então, tudo se repete cada vez de forma criativa, nova, e há a História. Neste caso eternos retornos e reencarnações estão a milhas; os “déjà vu” têm outra interpretação. E – o mais importante – há neste caso uma “coisa” chamada liberdade. Não que não haja determinismos; ainda bem, senão não havia trapézio; mas o que interessa aqui é que há principalmente determinação. Há liberdade numa circunstância, a minha. Há pessoa, eu. Há trabalho, realização, civilização e cultura.

Gira a sua vida! Às vezes não tem graça nenhuma. Parece. Eu sei. Desistir ou continuar apesar de? E se tirar o apesar? E se for por meio, ou através do desengraçado? É a grande partida! A grande decisão. Não de tamanho mas de valor. Cabe a cada um decidir. Como alguém já apelidou de “Decisão para a existência”. Como decidir? Com que instrumentos? Não terei chegado tarde? Ou prematuramente? Se em mim não encontro só matéria (coisas que posso medir com o meu metro de centímetros), isto é, se em mim encontro também dimensões que escapam aos milímetros, então posso concluir que a balança da mercearia não chega e que afinal não me vou diluir no cosmos – seria melhor dizer até caos, porque nesse caso (no de tudo ser de-composto), não vejo razões.

Gira a sua vida! como em Gestão? Auto-ajudas e famílias chegadas? Pois neste ponto, dependemos dos anteriores. Do que se entende pelo “material” de que sou feita. Se em mim admito domínios incomensuráveis, não há gestão que resista. Planeamento, razoabilidade, sim. Claro. Tudo corre sob meu conduzir. Mas conto com todas as frestas da minha liberdade. Sei que vivo na passadeira onde ando, e mando e não mando em mim. Sei que ser livre é ser dona dos meus actos. Experimento a escravatura.

É, neste caso, a vida que me gere, ou que me gera. E eu? É arriscar tudo em cada gesto, em cada momento. Tudo. Toda. Só os simples o “fazem”. Andam no exercício do re-colhimento e com eles aprendo. Não me interessa a que velocidade; mas que é outra onda, outro mar, disso não duvido. Experimento. A chatice é o orçamento de Estado. Mas há pior; e é preciso, por enquanto, fazer estas contas, também. Mas que não me perca nelas!

“De que te serve ganhar o mundo inteiro, se te vieres a perder’” – dizem-me agora mesmo ao ouvido. Quero viver nesta razoabilidade provada do valor da simplicidade. Sem contas, nem mãos a medir.

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“Quem simpatiza pára” (Bernardo Soares). Em Saramago páro. Faz hoje 4 anos que partiu para outro lugar: “O que fizeste do teu irmão?” (repete em “Caim”). “Terra do Pecado” é o seu primeiro livro. Mudaram-lhe o título, di-lo o autor no “aviso” inicial. Ele queria ser escritor. Diz. E termina: “…o futuro não terá muito para oferecer ao autor de ‘A Viúva’.” (Caminho, 9ª ed. p.9). Matamos o irmão, nós incluídos. E isso é estar fora do paraíso. As nossas vidas. A crise. Como sair?

Na Fundação José Saramago, o dia é de trabalho cumprindo assim aquele a que chamam "Mandato Saramago". Para assinalar a data, destaco da programação: o filme “O Homem Duplicado”, adaptado livremente a partir do seu livro homónimo. Estreia amanhã nas salas de cinema portuguesas e brasileiras. E das 10 às 18 horas, a entrada na Casa dos Bicos é hoje livre. Gosto do site da Fundação.

Há 2 anos, a 13 de Junho, lançou-se a ideia do “Dia do desassossego”. No discurso da Presidente da Fundação Saramago, por sinal dia de anos de Fernando Pessoa e dia de santo António: “Lançamos a iniciativa de um Dia do Desassossego que talvez a câmara assuma e se faça em Lisboa um Bloomsday universal e pessoano…”. Estavam a ouvi-la Mário Soares, Maria Barroso e Manuela Eanes, o presidente da Câmara Municipal António Costa, o secretário de Estado da Cultura Francisco José Viegas, a deputada Gabriela Canavilhas, o político Jerónimo de Sousa, os poetas Vasco Graça Moura e Nuno Júdice, a escritora Nélida Piñón, que veio do Brasil para representar na cerimónia a Academia Brasileira de Letras, o cineasta Miguel Gonçalves Mendes, os editores Zeferino Coelho e Manuel Alberto Valente. Eduardo Lourenço enviou uma mensagem que foi lida durante a cerimónia.

Vasco Graça Moura, que durante oito anos trabalhou na Casa dos Bicos quando ali estava instalada a Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, achou “extremamente interessante que ela tenha passado de um sítio onde se cruzavam ideias sobre celebrações do passado português para um sítio onde se encontra depositada uma obra e sobretudo uma memória que é extremamente importante na nossa cultura actual”.

Saramago dizia-se não crente. Mas porque terá “parado” a vida inteira nos textos bíblicos para os virar do avesso?, perguntou outro dia Eduardo Lourenço. Sim, “crente” não define uma pessoa. O que define uma pessoa – e a pessoa define-se por ser indefinível – é ser aquela e não outra. E ao nome “Saramago” não há quem fique indiferente. Eu também cheguei a pensar que se pode pensar sem preconceitos. Mentira. Ninguém parte do zero, traz consigo uma história, ideias, opiniões sobre as coisas. Pre-conceitos; uma espécie de óculos com os quais eu me vejo e vejo o resto. Tirar os óculos é ficar com outros. A própria cegueira é um forma de ver (inimaginável para mim, que por enquanto ainda vejo). A obra e o homem partilham uma cumplicidade indizível, no entanto é impossível reduzir uma pessoa àquilo que fez, faz e fará. No caso, Saramago às linhas que escreveu. Ao ouvir “Saramago” habituei-me a ouvir Memorial do Convento. Parei no final do primeiro capítulo. Achei que era ofensivo. A Deus e à Sua Mãe. Parei. Veio o Nobel.

Vale o que vale. Insisti então, um pouco ao calhas: “Ensaio sobre a cegueira”. Devorei. Curioso: radicalmente diferente do que antes tinha lido. Nem uma palavra sobre Deus. Ou Mãe. Poder descritivo puro. Domínio da palavra. Nem uma a mais, nem uma a menos. A questão da pontuação é para mim um dinamismo que ao soltar o texto dessa outra forma, faz a linguagem elástica e provoca a interação. Uma espécie de liberdade.Logo no começo do livro, Saramago dá-nos um “semáforo” como ninguém. Sem lirismos, quase de um modo matemático, conta o que se dá a ser visto. E o livro corre assim até ao fim.

Embora se possa retirar das obras no seu conjunto uma mensagem, ela não é linear. Uma invariante – salvo o ciclo que começa precisamente com este ensaio, mas que depois volta a ser interrompido, e Caim, o seu livro preferido, acaba por ser uma síntese (Aufheben) à maneira hegeliana – é a sua visão da Igreja. Melhor, de uma certa forma de ser Igreja. Saramago acaba por reduzir a Igreja a uma parte dela, como uma moral de fracos, para usar a expressão de Nietzsche. Mas Saramago não sabe que a Igreja não é uma moral.

Não dizem as religiões todas o mesmo; amor, justiça, paz. Se é só para isso, para que serve a Igreja? E às vezes até contribui para o contrário de tudo isso! Por isso tanta amargura e desentendimento. Falta de cuidado. Pobres dos pobres: a eles se dedicam as Madres Teresas. O desejo de conhecer é uma grande fome. E são muitas as vezes em que o mascaramos. Quem de nós quer escancarar as portas dele? Todas?

O nódulo do Cristianismo está na carne. É isso que custa engolir. Por isso custa tanto dizer a palavra “belo”, diz a irmã de Isaura (José Saramago, in "Clarabóia", Caminho, 2011). Tia Amélia, ainda chocada pela sua incapacidade de há pouco, quis esclarecer: “ –Percebo eu. É como a palavra Deus para os que crêem. É uma palavra sagrada.”

E ao lado de quem aponta a luz, é bom quem aponte a epidemia de cegueira que proliferamos. Importa sair de caverna e voltar a ver. E um livro é "apenas" um livro. A cultura, a vida humana, depende de cada gesto meu, dos meus desassossegos. O livro impossível, dele (como disse na Culturgest quando apresentou "Caim"). No filme “José e Pilar” a propósito deste desassossego o nobel afirma: “Deus não existe! Quem quiser acredite, pronto!”

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